22 de set. de 2010

Debate esquerdista vira "jogo amistoso", mas não poupa ausência de Plínio

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Eles não somam 1% das intenções de voto nas pesquisas para o que chamam de “farsa da democracia burguesa”, “jogo de cartas marcadas” e “par ou ímpar de 3 de outubro”. Em outras e convencionais palavras, a eleição presidencial de 2010.

Culpam o “monopólio totalitário da mídia” pela baixa adesão popular – felizmente, esta reportagem não pode ser acusada de “bloqueio midiático”.

Zé Maria, do PSTU, Ivan Pinheiro, do PCB, e Rui Costa Pimenta, do PCO, foram os três participantes do Debate dos Presidenciáveis de Esquerda, que aconteceu na noite de terça em São Paulo e foi transmitido pela Internet.

No entanto, faltaram ingredientes típicos desse tipo de programa. Engana-se quem imaginou que o jingle fosse o hino da Internacional Socialista: o debate não teve trilha musical.

Também não havia jornalista pop star como mediador. Contudo, Nilton Viana, editor-chefe do jornal esquerdista Brasil de Fato, teve que enfrentar uma interrupção logo na apresentação: um jovem da Liga Bolchevique Internacionalista entrou diante das câmeras para propagar o boicote às urnas e ainda pediu para fazer perguntas aos candidatos, o que estava fora das regras. A solicitação foi recusada, e o bolchevique pacificamente voltou para sua cadeira.

Outra coisa que faltou foi o tradicional bate-boca dos debates. O trio caminhava mais para a convergência e falou até em formar uma frente de esquerda para as próximas eleições. No grupo, não estaria incluido o PSOL de Plínio de Arruda Sampaio – ele foi convidado, como Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV), e também se ausentou. “Acho que o Plínio está sentindo que é da primeira divisão, e nós somos da segundona”, cutucou o concorrente do PCB. “É grave a ausência do PSOL. Isso só enfraquece a esquerda”, fez coro Zé Maria.

Na apresentação, o político do PCB foi apresentado como “camarada Ivan”, enquanto o ex-metalúrgico Zé Maria foi anunciado como “o operário que não mudou de lado”.

O líder do PSTU tem o melhor retrospecto eleitoral dos três: foi presidenciável com o slogan “contra burguês, vote 16”em 1998 e 2002, colhendo, respectivamente, 0,30% e 0,47% do total de votos. Já Costa Pimenta computou 0,04% dos votos em 2002 e teve a candidatura indeferida em 2006. Pinheiro, por sua vez, é novato na corrida presidencial, mas tentou ser vereador, prefeito e deputado pelo Estado do Rio de Janeiro. “Mais do que voto, eu peço reflexão nessa eleição”, argumenta Pinheiro.

No início da campanha, houve uma tentativa de lançar uma coligação com PSOL, PCB e PSTU, mas a proposta barrou na diferença programática. “O Plínio fala em estatizar a saúde e a educação, isso só não é socialismo. Isso é reformismo”, sentenciou Zé Maria. Já Pinheiro falou em formar uma “frente anticapitalista” para as próximas eleições.

Apesar de modesto, o debate esquerdista teve cobertura da TV estatal da Argentina e do jornal mexicano La Jornada, cujo correspondente perguntou sobre o venezuelano Hugo Chávez e Lula como ícones latino-americanos. “São governos da esquerda burguesa da América Latina”, decretou Costa Pimenta. “Lula cumpre os interesses dos EUA na região, e o socialismo do século 21 de Chávez mais parece o capitalismo do século 20”, apontou Zé Maria. As críticas atingiram também o bolsa-família de Lula. “O governo gasta mais com o bolsa-banqueiro”, opinou Zé Maria.

Pimenta falou em criar impostos ao luxo, enquanto Pinheiro quer acabar com a lei de Responsabilidade Fiscal. Os três, em caso de imaginária e longínqua vitória, prometeram nacionalizar as multinacionais, estatizar os latifúndios e expropriar o sistema financeiro. As condições para uma vitória da esquerda, porém, são remotas - a não ser que alguém acredite que Dilma pode ser classificada assim.

http://eleicoes.uol.com.br/2010/ultimas-noticias/2010/09/22/debate-esquerdista-vira-jogo-amistoso-mas-nao-poupa-ausencia-de-plinio.jhtm

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